quinta-feira, 22 de setembro de 2016

vivemos desconcentrados

- Que sabes tu da felicidade?
- O mesmo que tu. O mesmo que todas as pessoas que cansaram de a procurar.
- Eu nem tentei. Nunca acreditei na possibilidade de ser feliz.
- Tanto faz. Não é uma questão de procura, apenas de atenção. A atenção demora. Vivemos desconcentrados.
- Foste feliz, tu?
- Aprendi a ser. Sou feliz, agora.

Inês Pedrosa in: Desnorte. Ed. Dom Quixote.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

do amor, da fúria

(...) na realidade, o amor não me passou tão depressa quanto a fúria: agarrava-me àquela frase do timbre.

Inês Pedrosa in: Desnorte. Ed. Dom Quixote.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

do frio


Flavio Cafiero in: O frio aqui fora. Cosac Naify, p. 37.

sempre o tempo

O tempo é uma medida do espírito, não dos dias que passam.

Inês Pedrosa in: Desnorte.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

do silêncio

Ela precisava aprender a se calar em vez de ficar procurando palavras para o que não cabe nelas. Cacoete de achar que o silêncio incomoda, intimida.

Adriana Lisboa in: O sucesso. Ed. Alfaguara, p. 80.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

e não foi inútil

Sempre me chamava de Pedrito. Jamais me chamou de Pedro Juan. Era doce ouvir sua voz acariciando meu nome. Eu me concentrava tanto quando a olhava que ela devia saber que estava mais apaixonado do que um cão. Que não podia viver sem olhar para ela todo dia. Claro que sabia. E devia rir de mim. (...) Perdi muito tempo nessa paixão inútil e deliciosa. Ou talvez não. E não foi inútil. É uma das lembranças mais bonitas que eu tenho na memória. Foi um amor intenso e profundo. De mão única. Não havia reciprocidade. Depois, com o passar dos anos, aprendi que quase sempre o amor se manifesta assim: numa direção só. É uma corrente que flui num sentido e poucas vezes tem resposta. Felizes aqueles que conseguem usufruir um amor que se manifesta, com a mesma força, nas duas direções.

Pedro Juan Gutierréz in: Fabián e o caos. Ed. Alfaguara, p. 48-49.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

do irritante

De forma curiosa, a sua voz, apesar de terrivelmente fraca, dessa vez é ouvida perfeitamente. Existe, na realidade, uma circunstância em que até a voz mais fraca é ouvida. É quando profere ideias que nos irritam.

Milan Kundera in: A Lentidão. Editora Nova Fronteira, p.86.

sábado, 25 de junho de 2016

do amor


O sentimento de ser eleito está presente, por exemplo, em toda relação amorosa. Pois o amor, por definição, é até mesmo prova de um verdadeiro amor. Se uma mulher me diz: amo você porque você é inteligente, poque é honesto, porque me compra presentes, porque não anda atrás das outras, porque lava a louça, fico decepcionado; esse amor me parece interesseiro.Como é mais bonito ouvir: sou louca por você apesar de você não ser nem inteligente, nem honesto, apesar de você ser mentiroso, egoísta, ordinário.

Milan Kundera in: A Lentidão. Editora Nova Fronteira, p.57.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

escapa

Há algo de apavorante em ser tão pessoal e tão pública. Por instinto de preservação ou maneirismo, ela teme tornar-se demasiado visível. Cada vez mais refugia-se no enigma. Das mentiras, dos romances. Dirão que ela complica por gosto. Sim, sem dúvida é o que deseja. Na maior parte do tempo, vão atrás dela cegamente. Sem tentar compreender. A arte deslumbra. Ela escreve. Ela foge. Cada livro é uma escapada. Ele vive, no lugar dela, sua história maldita, proibida. Ele a torna suportável.

Frédérique Lebelley in: Marguerite Duras - uma vida por escrito. Ed. Scritta, p. 148.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

de Lol V. Stein

Frequentemente, pouca coisa basta - um certo olhar, um certo riso, jovial, espontâneo - para inspirar a Duras um personagem que, em seguida, se impõe a ela, soberano e indestrutível. Dessa vez, trata-se de uma jovem doente que ela teve de acolher em sua casa, por um dia, e que, à noite, mandou de volta ao asilo. "Eu a conheci durante um dia inteiro", disse Duras, como se tivesse dito: a vida inteira. Não tornara a vê-la. Mas desse breve período vai nascer Lol V. Stein, esse personagem de nome estranho "que não nomeia", oco, trespassado no centro por um furo. Durante doze anos ela habitará toda a obra de Marguerite Duras.

Frédérique Lebelley in: Marguerite Duras - uma vida por escrito. Ed. Scritta, p. 162.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

da (não)contemplação

"Vocês bebem chá no seu país?"
"No Brasil? Menos que café."
"Por causa do calor?"
"Por causa do nosso temperamento. Há muita contemplação em uma xícara de chá."
"E você não tem tempo para contemplar?"
"O tempo nos irrita. Nós estamos sempre querendo reiniciar a contagem, recomeçar do zero. O Brasil deve ser o único país do mundo onde as pessoas se desejam um bom ano duas vezes ao ano. no início de janeiro e no início de março. Como se a gente estivesse o tempo todo dizendo: esquece o passado, é a partir de agora que está valendo."
"E o café será para isso?"
"O café é uma bebida de um minuto, que se bebe antes de se tomar uma decisão ou antes de se planejarem as próximas duas horas do dia. O café é uma bebida sem memória".
"E o Brasil é um país sem memória?"
João sorri, dá de ombros. Foda-se a tradição, essa é a nossa tradição."
"Falando assim até parece que você odeia o Brasil."
"Não, diz João Pedro lentamente, navegando o sachê pela xícara. "Somos inofensivos, queremos ficar de bem com todo mundo. É o que nos salva".

Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed.Benvirá.



quarta-feira, 25 de maio de 2016

das mudanças


Mudanças despencavam sobre sua família feito fatalidades, não refletiam vontades individuais mas sim tremores coletivos, o telefone tocava às três da manhã e sua mãe já despertava com a mão no peito, Deus na ponta da língua.

Caio Yurgel in: Samba sem mim. Ed.Benvirá.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

da escrita

E Duras, aniquilada por esses profundos transtornos, entrega-se à psicanálise. Chega até mesmo a se perguntar sobre o sentido dos livros. Deve continuar? O médico ouve, lê seus escritos e interrompe as sessões: "A senhora não tem nada o que fazer aqui. A solução para a senhora é escrever".

Frédérique Lebelley in: Marguerite Duras - uma vida por escrito. Ed. Scritta, p. 162.

sábado, 30 de abril de 2016

do grito

Parágrafo de abertura do romance “Grito” (Ed. Record), do escritor Godofredo de Oliveira Neto.

Ele diz se tratar do grito que sua irmã gêmea não conseguiu dar no nascimento. Nasceu morta. Se chamaria Ifigênia de Sá Sintra. E isso liberta ele. Depois virou um costume; e a cada situação profissional nova Fausto solta o grito engasgado na garganta da gêmea. Meio tétrico eu também sempre achei, mas tudo bem, ele agora ri às gargalhadas. É grito de alegria. Um grito diferente. Parece mais um choro misturado com risada alta. Dá para sentir que o choro foi aos poucos perdendo espaço para o riso, e apenas no comecinho, e só para aqueles que o conhecem de perto, detecta-se o pranto.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

do que é essencial

O que censuro nos jornais é nos fazer prestar atenção, todos os dias, nas coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais.

Marcel Proust