sexta-feira, 20 de março de 2015

sobrevivente do extinto amor


Então se lembrou de uma frase: Não tente me convencer de que não estou sofrendo. Um clássico de Sofía: um desses estilhaços que o amor esculpe e deixa cravados num órgão a que só ele tem acesso, de modo que sobrevivam a tudo, até mesmo à extinção do amor, e passam a ser essenciais para o organismo onde se incrustaram, a tal ponto que ninguém pode retirá-los sem pôr em risco a vida de seu portador.

Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 256.

quarta-feira, 18 de março de 2015

do tempo

Queria dizer a Raul que pensasse no tempo que fatalmente passaria, como sempre passa. O que hoje é drama, sempre, amanhã, estará quieto na memória.

Caio F. In: Triângulo das águas. Ed. Nova Fronteira, p. 26, 1983.

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terça-feira, 17 de março de 2015

prescreveu

E a dívida que Rímini contraíra com ela foi perdendo vigor e enlanguescendo, como enlanguescem os objetos perdidos que ninguém reclama, até que prescreveu.

Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 141.

quinta-feira, 12 de março de 2015

e, no final


Ao terminar, Rímini estava esgotado - esgotado e perplexo, como aquele que cava um poço para escapar e, no final, diminuto entre altas paredes de terra, descobre que já não tem como sair.

Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 182.

quarta-feira, 11 de março de 2015

não existe nada atrás

“Estou vendo”, disse Sofía. “Isso é avançar, para você. Cada coisa apagada, um passo à frente, não? E assim você vai se limpando. Assim vai se desfazendo do que não lhe serve. Para que tanto lastro, não é? Junta pó, ocupa espaço, precisa ficar sempre arrumando. Melhor se livrar disso tudo. ‘Libertar-se.’ Por isso você procurou a garota, não? É jovem... Não tem passado (se chama Vera, não é? Vera. Gosto do nome.). Ideal. Atrás não existe nada. Agora está tudo pela frente”.
Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 149.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Completamente


Não que Sofía tivesse reaberto uma ferida que continuava viva nele, apesar dele, contra essa vida "cicatrizada" que ele levava; imperdoavelmente, Sofía sacrificava uma oportunidade, e Rímini, favorecido pelo veredicto dessa discutível justiça retrospectiva, agora podia fazer o que até então, por amor ou por medo, evitara: esquecê-la completamente.

Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 101.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Foge

Acabava de cometer um erro, o tipo de imprudência que, projetada numa tela de cinema, estremece de espanto e excitação o espectador menos impressionável e lhe arranca uns gritos de alarme que só se lembra de ter dado quando criança, num remoto espetáculo de fantoches. Mas Rímini não era um cínico; ninguém aterrorizado tem tempo para o cinismo: renunciar à partilha das fotos - porque o adiamento era apenas a máscara de algo mais definitivo: uma deserção - não era uma questão de cálculo, mas de sobrevivência. Fugia.

Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 52.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

dorme

Quando contei que estava com insônia, indagou-me incontente. Sem a pequena morte de toda noite, como sobreviver à existência de cada dia?

Evandro Affonso Ferreira in: Os piores dias minha vida foram todos. Ed. Record, p. 52.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

atrás das palavras

Sua virulência verbal tinha muitas vezes a assustadora aparência de um retábulo de Caravaggio. Costumava dizer que só conseguia encarar a vida de frente atrás das palavras.

Evandro Affonso Ferreira in: Os piores dias de minha vida foram todos. Ed. Record, p. 52.

Imagem: Francinette Ferreira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os piores dias de minha vida foram todos

Não estreitava relações com nada-ninguém, conservando-me na obscuridade. Sei que os piores dias de minha vida foram todos. Esborralhas congênitas: dentes ainda na juvenescência saíram dos quícios dos eixos; apodrecimento precoce - perdi o riso.

Evandro Affonso Ferreira in: Os piores dias de minha vida foram todos. Ed. Record, p. 15.

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

...

Tuas crises de ciúme te tornam violenta. Dá para ver pelo relatório.

Se o cara é meu é meu, doutora. De mais ninguém.

E vale a pena ser presa por isso? Todos soltos namorando, inclusive o teu namorado, e você aqui. E o ciúme resolve alguma coisa? O teu parceiro vai deixar de namorar outras por conta das tuas crises?

Pois é, não sei. Até o padre me disse que é bobagem, que é melhor deixar rolar. Se gosta, gosta, se não gosta, não gosta. Agora estou mais tolerante, não faria o que fiz. O ciúme não leva a nada, é verdade.

Trecho de "Ilusão e Mentira" (Ed. Batel) de Godofredo de Oliveira Neto.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Brodi também já era exagero. Os anglicismos em si me irritam, e assim então, aportuguesados! Não, já era demais, pensei. Eu estava enlouquecendo? Quis ir embora, mas algo me retinha. E formulei o que deveria ser a última pergunta. Torci para que ele não conseguisse responder e, assim, tudo terminaria ali mesmo. Fora apenas um sonho.

- Mas você não acha que a tua dona te consigna a uma vida sem brilho?

- Que dona? Aquela senhora que está dormindo ali, e antes, o marido dela, o seu Zeca Pires, é minha faxineira. Vês o milho e a água na vasilha?

Trecho de “Ilusão e Mentira” (Ed. Batel) de Godofredo de Oliveira Neto.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

me dê motivos

A senhora está pensando o quê! O amor vem ou porque o cara é lindo pra caramba, parecido com um ator de novela, ou porque lembra o pai, ou porque tem grana, ou porque faz pensar no primeiro namoradinho, ou porque tem poder, ou porque é político e dá emprego pra família da gente e por aí afora. Sempre tem uma razão. Não vem assim do nada não, assim do nada só nos romances que a professora lia para a gente na Escola José de Alencar. Sem essa de ficar como uma flor no meio do mato esperando algum gato colher a gente. Pode esperar sentada que isso não existe. Não tem príncipe não, doutora.

Trecho de “Ilusão e Mentira” (Ed. Batel), de Godofredo de Oliveira Neto.

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terça-feira, 23 de setembro de 2014


Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdoo, eu amo.

Adélia Prado

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

...

(Porque, embora deva ser breve a nossa vida, é só enquanto sofremos que nossos pensamentos, de algum modo agitados por movimentos perpétuos e ondulantes, elevam, como numa tempestade, a um nível onde se torna visível, toda essa imensidão regida por leis, que, debruçados a uma janela mal colocada, não conseguimos avistar, porque deixa-a rasa e lisa a calma da felicidade; só para alguns grandes gênios tal movimento existirá sempre, independente da agitação da dor; não o podemos todavia afirmar, pois, ao contemplar-lhes o largo e regular desenvolvimento das obras alegres, inferimos, da alegria da produção, a da vida, talvez ao contrário constantemente dolorosa?)

Proust in: O tempo redescoberto. Tradução de Lúcia Miguel Pereira. Ed. Globo, p. 173.