segunda-feira, 29 de junho de 2015

não

Dizer não

Mesmo quando o vidro moído da palavra magoar sua garganta.
Colocar a mão na fogueira e acariciar
as brasas, ainda que sua pele
descole feito a de um tomate.
Apagar
as luzes e abraçar os mortos-vivos.
Morder, mesmo sem as presas de um cão.
Uivar. Dizer não até
a náusea: esse amor indulto,
esse desvelo sem glória
em que só os condenados
insistem.

(Adriana Lisboa in: Parte da paisagem. Ed. Iluminuras)

domingo, 28 de junho de 2015

não digo nada

e
permaneço imóvel
como para não afugentar
uma borboleta pousada por descuido
na palma de minha mão
não digo nada
mas de certa forma
estou completo

Caio F.

sábado, 27 de junho de 2015

do devaneio

E esse era o problema: a dificuldade feminina de evitar o devaneio.

Ana Luisa Escorel in: Anel de vidro. Ed. Ouro sobre Azul, p. 79.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

com cuidado

A minha mãe explicou que o amor também é namorar com cuidado.

Valter Hugo Mãe in: O paraíso são os outros. CosacNaify.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

passado-futuro

"Por isso não se deve temer no amor, como na vida habitual, tão-somente o futuro, mas também o passado, o qual não se realiza para nós muitas vezes senão depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler".

(Marcel Proust in: Em busca do tempo perdido vol. 5 - A Prisioneira. Tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar. Ed. Globo, p.69)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

dos excessos

Mas Walter sempre tivera uma capacidade especial de sentir tudo intensamente. Nunca conseguia o que desejava porque sentia tudo em excesso. Parecia ter em si um amplificador muito melodioso para as pequenas felicidades e infelicidades da vida.

Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 138.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Quando um cortejo se dispersa

Algo imponderável. Um presságio. Uma ilusão. Como quando um imã larga a limalha e esta se mistura toda outra vez. Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar.

Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 77.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

náusea universal

Estava sempre disposto a amar todas essas manifestações de vida. O que nunca conseguia era amá-las sem reservas, como exigia a sensação de bem-estar social; há muito pairava sobre tudo o que ele fazia e vivia um sopro de repulsa, uma sombra de impotência e solidão, uma náusea universal, para a qual não conseguia encontrar nenhuma inclinação compensadora. Por vezes, sentia-se como se tivesse nascido com um talento para o qual não havia objetivo no presente.

Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 79.

terça-feira, 16 de junho de 2015

algo falta

Como acontecera na primeira viagem à Europa, teve a impressão de que algo faltava à cena: altercações, alguma desavença, uma dose de rancor, gritos, alguma irregularidade que aguçasse um pouco essa espécie de doçura arredondada, protetora...

Alan Pauls in: O passado. Cosac Naify, p. 51.

Imagem: Patricia Highsmith

sexta-feira, 12 de junho de 2015

o sombrio encanto

Para seu amigo, noites como aquela pareciam folhas arrancadas, animadas por toda a sorte de ideias e fantasias, mas mumificadas como tudo que é retirado de um contexto; e cheias daquela tirania do que se fixou eternamente e que se constitui o fantasmagórico encanto dos quadros vivos, como se tivessem dado um sonífero à vida, e agora ela estivesse parada ali, hirta e cheia de alusões, com contornos nítidos, mas monstruosamente desprovida de sentido no quadro geral.

Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 43.

Imagem: Jean-Pascal Imsand

quinta-feira, 11 de junho de 2015

tchau

Depois afastou-se, como uma pessoa que aprendeu a renunciar...

Robert Musil in: O homem sem qualidades. Nova Fronteira, p. 31.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

do perdão

O que eu fiz de errado eu carrego comigo. Nada some porque a gente decide, porque a gente quer. Ninguém pode me tirar o mal que eu fiz pros outros. A gente precisa disso pra ser uma pessoa melhor. Perdoar é como fingir que não existe. Mas a vida é resultado do que a gente fez. Não faz sentido agir como se algo não tivesse acontecido.
Perdoar não é isso! Tu é maluco! Perdoar é livrar as outras pessoas da culpa. E fazendo isso tu também te liberta. Não é fingir que não existiu. É uma doação, uma entrega. É uma escolha que se faz. Precisa de coragem, mas vale a pena.
Não é uma escolha. Não existe escolha.
Não?
No fundo não.

Daniel Galera in: Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 419.

www.vemcaluisa.blogspot.com.br

terça-feira, 9 de junho de 2015

do não dizer

Ninguém diz nada de um jeito que diz muita coisa.

Daniel Galera in: Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 65.

domingo, 7 de junho de 2015

se

Quando a gente se conheceu tu tinha vinte e um anos e era só isso que tu queria. Mas foi gastando. Talvez se eu tivesse a cabeça um pouco mais aberta. Se eu lesse os livros que tu me dava e gostasse. Se eu mudasse com o tempo. Se me interessasse pelo teu mundo. Se eu fosse um pouco mais parecido com alguém que eu não era.

Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 416.

sábado, 6 de junho de 2015

Ela não responde mas seu olhar se reconfigura. Agora é um olhar de despedida no qual se entrevê que ela não está se despedindo propriamente dele, porque ainda vão se ver por aí, e sim de um outro mundo idêntico a esse exceto pelo detalhe de que eles teriam ficado juntos, teriam se apaixonado e teria durado, um mundo que foi imaginado em detalhes e acalentado por algum tempo e do qual ela só está se desapegando nesse instante. Ele sente uma tristeza enorme. De repente a quer de novo. É como se o apego àquele outro mundo saltasse do corpo dela para o dele como um espírito invasor. Talvez ele esteja se sentindo agora exatamente como ela se sentia um minuto antes.

Daniel Galera in:Barba ensopada de sangue. Companhia das Letras, p. 178.