sexta-feira, 21 de novembro de 2014

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Tuas crises de ciúme te tornam violenta. Dá para ver pelo relatório.

Se o cara é meu é meu, doutora. De mais ninguém.

E vale a pena ser presa por isso? Todos soltos namorando, inclusive o teu namorado, e você aqui. E o ciúme resolve alguma coisa? O teu parceiro vai deixar de namorar outras por conta das tuas crises?

Pois é, não sei. Até o padre me disse que é bobagem, que é melhor deixar rolar. Se gosta, gosta, se não gosta, não gosta. Agora estou mais tolerante, não faria o que fiz. O ciúme não leva a nada, é verdade.

Trecho de "Ilusão e Mentira" (Ed. Batel) de Godofredo de Oliveira Neto.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Brodi também já era exagero. Os anglicismos em si me irritam, e assim então, aportuguesados! Não, já era demais, pensei. Eu estava enlouquecendo? Quis ir embora, mas algo me retinha. E formulei o que deveria ser a última pergunta. Torci para que ele não conseguisse responder e, assim, tudo terminaria ali mesmo. Fora apenas um sonho.

- Mas você não acha que a tua dona te consigna a uma vida sem brilho?

- Que dona? Aquela senhora que está dormindo ali, e antes, o marido dela, o seu Zeca Pires, é minha faxineira. Vês o milho e a água na vasilha?

Trecho de “Ilusão e Mentira” (Ed. Batel) de Godofredo de Oliveira Neto.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

me dê motivos

A senhora está pensando o quê! O amor vem ou porque o cara é lindo pra caramba, parecido com um ator de novela, ou porque lembra o pai, ou porque tem grana, ou porque faz pensar no primeiro namoradinho, ou porque tem poder, ou porque é político e dá emprego pra família da gente e por aí afora. Sempre tem uma razão. Não vem assim do nada não, assim do nada só nos romances que a professora lia para a gente na Escola José de Alencar. Sem essa de ficar como uma flor no meio do mato esperando algum gato colher a gente. Pode esperar sentada que isso não existe. Não tem príncipe não, doutora.

Trecho de “Ilusão e Mentira” (Ed. Batel), de Godofredo de Oliveira Neto.

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terça-feira, 23 de setembro de 2014


Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdoo, eu amo.

Adélia Prado

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

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(Porque, embora deva ser breve a nossa vida, é só enquanto sofremos que nossos pensamentos, de algum modo agitados por movimentos perpétuos e ondulantes, elevam, como numa tempestade, a um nível onde se torna visível, toda essa imensidão regida por leis, que, debruçados a uma janela mal colocada, não conseguimos avistar, porque deixa-a rasa e lisa a calma da felicidade; só para alguns grandes gênios tal movimento existirá sempre, independente da agitação da dor; não o podemos todavia afirmar, pois, ao contemplar-lhes o largo e regular desenvolvimento das obras alegres, inferimos, da alegria da produção, a da vida, talvez ao contrário constantemente dolorosa?)

Proust in: O tempo redescoberto. Tradução de Lúcia Miguel Pereira. Ed. Globo, p. 173.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

a graça dos seres

- Você que ama tanto as coisas da inteligência... - dizia-lhe France.
- Não amo de modo algum as coisas da inteligência; só amo a vida e o movimento - respondia Proust.
Era sincero; a inteligência lhe era tão natural que ele nem valorizava seus jogos, invejando e admirando, isto sim, a graça dos seres de instinto.

André Maurois in: Em busca de Proust.Ed. Siciliano, p. 51.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ouvir de novo, acreditar.


Na fita da secretária eletrônica, deixar só um recado. Ouvir de novo, acreditar. Nem precisa ser de verdade. Rosas vermelhas brilham no escuro da sala quase toda branca. Quando teu pensamento me chamou foi bonito.

(Caio F. in: A vida gritando nos cantos. Ed. Nova Fronteira, p. 145)

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

nada


Silêncio.
"O que você tem, meu amor?"
"Nada." Um nada, o segundo, cujo significado era, claramente: Não me venha com essa de "meu amor".

Philiph Roth in: A marca humana. Companhia das Letras.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

como


“Quando, em uma entrevista, me fazem a pergunta: ‘Como o senhor escreveu o seu romance?, em geral corto e respondo: ‘Da esquerda para a direita´.”

(ECO, 2003, p. 285)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sabia que eu precisava terminar o que nem tinha começado

Preciso escrever, eu disse, com pompa, como um presidente da república que justificasse sua falta de tempo em atender às demandas de uma dona de casa, suas reclamações do gás de cozinha. Você sabe, eu preciso terminar isto aqui.
É claro que ela sabia. Sabia que eu precisava terminar o que nem tinha começado; que precisava começar. E eu, por meu lado, sabia também que ela não ignorava, por mais que este parágrafo fique truncado e confuso; eu sabia que ela não ignorava minha derrota cotidiana, meu fracasso diário, minha rendição incondicional à vida: eu entregava os sonhos como um condenado sob tortura entrega os cúmplices. A grande diferença, e ela tinha consciência também desse detalhe, é que eu me rendia, traía e entregava sem ter sido torturado.

Alexandre Marques Rodrigues in: Parafilias. Ed. Record, p.16-17.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

dos sonhos

Você sabe do que estou falando, muitos de nossos sonhos não se concretizam; alguns, sim, outros caem num caminhão de merda, e essa é a natureza da vida, ganhar e perder, nascer e morrer, caminhar e correr...

Carlos Henrique Schroeder in: As fantasias eletivas. Ed. Record, p.59.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

da literatura


Pois é hora de pedir à literatura que se erga, que abandone a passividade, e que volte a ocupar o lugar que, de fato, lhe cabe; que renuncie ao divã e venha se sentar, ela sim, na poltrona do analista. Que volte ao barco de Hemingway, aos delírios de Virginia, ao escritório de Kafka, à cozinha de Adélia, ao balcão de Pessoa. Que volte a viver – e a dar as cartas. E que simplesmente esqueça de nós, intérpretes bem treinados, arrogantes com nossos títulos e nossas referências, interrogadores e investigadores profissionais. E que nós tenhamos a coragem de retomar nosso posto, mais humilde e mais perturbador, de leitores; que tenhamos a humildade, e mais que isso, a ousadia, de deitar no divã, deixando que grandes ficções e grandes poemas nos interpretem, e não o contrário. A nós, enquanto sujeitos, e à realidade que habitamos, ao mundo de que fazemos parte, ao real.

José Castello

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

mar


Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente
sobre o mar

Fernando Pessoa

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Do enigma


Dostô in: O idiota. Editora 34, p. 102.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

das comparações

Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa. Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.

(Alberto Caeiro)

Imagem: André Kertész