terça-feira, 29 de julho de 2014


O campo é o lugar onde não estamos.

Bernardo Soares

segunda-feira, 28 de julho de 2014

da literatura

O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor.

William Faulkner


sexta-feira, 25 de julho de 2014

vago

Me parece vago me vestir das tuas palavras, ou te vestir das minhas. Me parece vago eu e tu.

Ana Cristina Cesar in: Poética. Companhia Das Letras, p. 402.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

e


(...) ele disse e parou, e eu sabia por que ele tinha parado, era só olhar o seu rosto, mas não olhei, eu também tinha coisas para ver dentro de mim...

Raduan Nassar in: Lavoura arcaica. Companhia das Letras, terceira edição, p. 26.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor


Do fundo do coração, ou Love, Love, Love

Sempre acreditei que toda vez que a gente entra numa igreja pela primeira vez, vê uma estrela cadente ou amarra no pulso uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, pode fazer um pedido. Ou três. Sempre faço. Quando são três, em geral, esqueço dois. Um nunca esqueci. Um sempre pedi: amor. Nunca tinha tido um amor. O quê? Aos 35 anos, agitando desse jeito? Explico: claro que tive dúzias, outro dia tentei contar e me perdi na altura do número cento e trinta e muitos. Mas tudo muito rapidinho, assim, uma hora, um dia, uma semana, um mês, pouco mais. Nunca, digamos, UM ANO. Então quando alguém suspirava e dizia cara estou saindo de um caso de DEZ anos, meus olhos arregalava de pura inveja. Histórias mais compridinhas, claro que rolaram. Maria clara por exemplo, mas a gente morava , eu em Sampa, ela no Rio, amor-ponte-aérea. Caríssimo. Isso, das moças. Dos moços, aquele bailarino amerciano em London, London, quatro/cinco meses. Talvez seis? Numa tarde de compras e roubos em Porto-bello Road me deu de presente um cacto (perfeito!) e me deixou plantado até hoje. Esse amor-de-metrô, último trem entre Hammersmith e Euston. Onde andará? (“Onde andará?” é das perguntas mais tristes que conheço, sinônimo de se perdeu.)

Eis que de tanto pedir, insistir, acender vela, fazer todos os feitiços para Santo Antônio e Oxum e concentrar, rezar, mentalizar, eis que pintou. Ano passa me baixou um encosto de São Francisco de Assis, joguei (literalmente) pela janela quase tudo que tinha, e com duas malas, parti para o Rio. Não queria me prender a nada. Nem a Sampa, bem amada. Numa ida a Porto Alegre, em agosto, deu-se. Explosão: à primeira vista. Tudo o que dissemos, depois de um suspiro de alívio, foi: eu amo você. Pasmem: verdade das verdadeiras. Ousadias do coração que saca, na hora, a intensidade do lance. E não disfarça. Bueno, tinha pintado. Então ta. Romance comme Il faut: dias numa casinha no meio de bosques em Gramado. Depois a volta ao Rio e, como dizia Ana Cristina Cesar (Aninha, Ana C., a bela, que falta você me faz menina fujona!), “amizade nova com o carteiro do Brasil”. Laudas e laudas de cartas de amor, uma por dia, duas por dia, dez por dia. Fotos, poemas, juras interurbanas. Voltei. Nós fomos dos dois pro Rio. Dois meses lá: o amor resistia, mas nenhum estava a fim de pegar no pesado. Então fazer o quê? Dividir quarto de pensão na Lapa, andar de ônibus, comer espiga de milho e misto quente? Nenhum acreditava em teu-amor-e-uma-cabana, também não era preciso teu-amor-e-um-rolls-royce (seria ótimo), mas pelo menos uma vitrolinha para fazer amor ao som do Bolero, de Ravel (amor tem desses lugares-comuns quase inconfessáveis). Voltamos. Verão em Torres. Camas de trinta horas. Passeios. Dunas, praia da Guarita. Filme. A sunga verde de lycra.

De repente uma luzinha vermelha começou, cigarro no escuro, a piscar dentro de mim. Foi no carnaval que passou. Suspeitas: porra, eu me afastei de tudo, de todos, joguei tudo pro alto e só quero esse amor, nada mais me interessa, se esse amor me faltar (pode?) eu só tenho isso, é o único laço que me prende à vida – e se falta, Deus, se faltar o que faço? Noites paranóicas, medo Ritchie. E … se dançar? Aí dançou. Foi dançando. Não sei bem como. Uma tarde peguei nas suas mãos e, bem cruel (punhais: como a gente sabe apunhalar com engenho e arte, crava devagarinho a lâmina, depois revira, dentro da ferida), pedi assim: me olha bem dentro dos meus olhos e me responde à seguinte pergunta: “Você não me ama mais?” Silêncio tão espesso que consegui ouvir o ruído do movimento de rotação da Terra. Feito na novela das seis, eu abri a boca quando ouvi a resposta. Um lento Não. Um claro Não. Um seguro Não. Um límpido Não. Um tranqüilo Não. Um sem dúvida alguma Não. Um afirmativo Não. Repete, pedi. Repetiu. Pede-se não enviar flores, pensei. Fechei a porta. Fiquei só, chovia. Com requintes de autopiedade, limpei devagarinho com feltro um disco da Elis, deitei no chão e ouvi umas cem vezes “Se eu quiser falar com Deus”. Quando já ia abrir o gás, corri ao telefone e pedi ao Zé Márcio Penido em Sampa: socorro. Vem, ele disse. Santo Amigo. Fui, na mesma hora. Me estonteei, vi todos os filmes, todas as peças, revi todos os amigos, ouvi todos os discos, namorei o que deu. Tinha sido NOVE MESES de fidelidade absoluta, nada imposto, o que é pior: supernatural… Fidelidade, no amor-amor, é sempre supernatural. Quando decidi estou-ótimo-fullgás-total-posso-voltar, voltei. The reencontro: quando dei por mim estava dizendo as coisas mais duras e agressivas e cruéis e impiedosas e injustas e ferinas e baixas e grossas que uma pessoa pode dizer à outra. Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos& gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou moderno e liberadérrimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avançava lentissimamente. Ao meio-dia rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: em interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a platéia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequencia de sapateado), coloquei os pés de Ogum. E agora, Caio F.? Agora, estou amanhecendo. Ah, me digo, então era assim. Essa coisa, o amor. Já conheço? Já conheço. Mas como é mesmo que se chama? Talvez, sim, anoitecendo, essas luzes penumbrosas são muito parecidas. Não sei muita coisa. Quase nada. Pedi? Levei. Nunca tinha tido um jeito assim, tão forever. Não me diga que vai passar, vai passar, vai passar, vai passar. Não me diga que foi ótimo, o que você queria, a eternidade? Não me peça para não te encher o saco lamuriando. Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo para essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva , da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes Filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um little help from my friends, e a platéia ainda aplaude e pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração, se mudou-através-dos-tempos, puro sexo, carência, medo da morte: não interessa. Tenho certeza que estive lá, naquele terreno. Ele existe.

Por isso falo dele: Joyce e Paula me pediram elucubrações, as minhas são estas. Estou contando a vocês que estou fazendo elucubrações sobre o amor porque provavelmente, de uma outra forma vocês aí que me lêem, talvez com tédio, também estão pensando a mesma coisa. O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor. Formas de amor. Amor é a palavra que inventaram para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda. Mas se me perguntarem o que quero dizer com isso, não tenho resposta. O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovado os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo – taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: It’s all right man, I’just bleeding. Tá limpo. Sem ironia. Sem engano. Amanhã, depois, acontece de novo, não fecho nada. Não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu.

* Texto de Caio Fernando Abreu, publicado na extinta revista Around, na década de 80.

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quinta-feira, 29 de maio de 2014


Grégoire Bouillier in: O convidado especial. Cosac Naify, p. 95.

terça-feira, 27 de maio de 2014

do tempo


Doía-me ter de imaginá-las diferentes, pois o tempo que muda os seres não altera as figuras que deles guardamos. Nada é mais triste do que essa oposição entre a decadência das criaturas e a imarcescibilidade das lembranças do que compreendermos não ser de fato mais a mesma quem com tanto viço surge à memória, não nos ser possível, exteriormente, contemplar a que interiormente tão bela nos parece, e que não obstante almejamos rever.

Proust in: O tempo redescoberto. Tradução de Lúcia Miguel Pereira. Ed. Globo, p. 244-245.

Imagem: Leonard Freed

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quarta-feira, 21 de maio de 2014

das lembranças


"Esgotadas as lembranças, já começou a antecipar diálogos, cheiros e sabores com Clarice".

Raphael Montes II in: Dias perfeitos. Companhia das Letras, p. 24.

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

fone/fome


Embora eu não acreditasse nos meus ouvidos, ela me ligava de repente depois de todos aqueles anos em que não deu notícia nenhuma, nem sinal, nada, nunca.

Grégoire Bouillier in: O convidado surpresa. Cosac Naify, p. 6.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

sábado, 3 de maio de 2014


(...) como se aquele adeus fosse uma despedida como tantas e dia seguinte tornassem a se ver e no entanto nunca mais a verá, a negra antiga e tenebrosa Milão está prestes a capturá-la e devorá-la, ela sumirá no labirinto, por alguns instantes o seu sorriso travesso ficará espelhado na poeta de vidro, depois na convulsiva multidão que se acotovela no corredor o perfil de sua nuca perder-se-á em meio a um distante som de rock, entre ele e Laide haverá uma distância infinita, planícies, mares e montanhas, além da cortina de silêncio e de escuridão. (...) O jogo acabou, é o acerto de contas. As portas que se fecham, a solidão, o vazio, o deserto, os mudos soluços que ninguém ouvirá. Você chegou ao porto, homem idiota, que pensava ser sabe-se lá o quê.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

aparece/desaparece


Mas ninguém diria que depois de ter superado o desaparecimento eu não pudesse superar o reaparecimento dela...

Grégoire Bouillier in: O convidado surpresa. Cosac Naify, p. 22.

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Caio F.

terça-feira, 29 de abril de 2014

(...) mas naquele momento fiz de tudo para que ela não percebesse que eu estava dormindo bem no meio da tarde, isso nem pensar, seria como um pecado da minha parte ou uma afronta àquele instante excepcional, ou ela teria pensado algo que eu queria justamente que ela ignorasse e, não, a minha vida não se tornara um sono contínuo e eu não passava o tempo inteiro deitado e jazendo em mim mesmo desde que ela me abandonou; ao contrário, eu vivia uma festa permanente e estava em plena forma e cada instante era um mar de rosas e, ora, o que ela pensava afinal?

Grégoire Bouillier in: O convidado surpresa. Cosac Naify, p. 7.

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